Reflexões (tardias?) sobre o sistema eleitoral

Todos já sabemos que os parlamentares que representam o povo brasileiro aumentaram seus salários astronomicamente; vão ficar mais quatro anos discutindo se fazem ou não a reforma política, provavelmente não farão; e se entenderão sobre o valor do salário mínimo: 540 reais? 545? E ao final do mandato voltarão a pedir votos, apontar o que está errado no Brasil e o que podem fazer para consertar. A maioria convencerá. E o mundo continuará girando.
Mas apesar dos milhões em marketing eleitoreiro; do bombardeio ideológico; da obrigatoriedade do voto e da hipnose midiática, não devemos esquecer que trinta e quatro milhões, duzentos e nove mil, seiscentos e oitenta e nove pessoas não votaram, anularam o voto ou votaram em branco no primeiro turno da eleição para presidente da República.
No segundo turno foram trinta e seis milhões, trezentos e trinta e outro mil , oitocentos e cinquenta e cinco.
O sistema eleitoral brasileiro só considera votos válidos aqueles que não representam um NÃO ao sistema, e por isso cria uma atmosfera falsa. Dá a impressão que tudo foi maravilhoso, que “o povo atendeu ao chamado da democracia”, mas os números não mentem.
A soma dos não votantes, votos anulados e votos em branco no primeiro turno superou o segundo colocado, José Serra (PSDB), em um milhão, setenta e nove mil, quinhentos e quinze.

E, como diz o jornal A Nova Democracia, apesar do monopólio da imprensa e dos pretensos “analistas políticos” atribuírem os desdobramentos eleitoreiros do pleito a um “bombardeio de intrigas” contra a candidata da chapa governista, ou a um sprint “fenômeno” da candidata verde, o grande fato do primeiro turno foi o elevado número de abstenções.
E os guardiães do sistema eleitoral devem estar se sentindo como os políticos retratados por José Saramago no livro Ensaio sobre a Lucidez, Os números das eleições para governadores só confirmam o resultado geral, com destaque para o Estado de Rondônia, que registrou o número mais alto de abstenções, votos brancos e nulos em um só estado: 38,52% dos possíveis eleitores (415.439 pessoas). No Nordeste, região alvo do bombardeio cerrado de “bolsas” de todo tipo, base da popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva, aproximadamente 30% dos possíveis eleitores repudiaram a “festa da democracia”.
Ainda segundo o jornal A Nova Democracia, esses dados que devem deixar os institutos de pesquisa e estatística desnorteados, não foram tabulados nem divulgados pela chamada grande imprensa. Inventar dados é possível, propagá-los e tentar vendê-los como verdade também, impossível é negar a realidade.

Falei acima de Saramago e do livro dele que ilustra bem os sistemas eleitorais. Lançado em 2004, o livro Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago, contava que num país qualquer, num dia chuvoso, poucos eleitores compareceram para votar, durante a manhã. As autoridades eleitorais, preocupadas, chegaram a supor que haveria uma abstenção gigantesca.
À tarde, quase no encerramento da votação, centenas de milhares de eleitores compareceram aos locais de votação. Formaram-se filas quilométricas, e tudo pareceu normal. Mas, para desespero das autoridades eleitorais, houve quase setenta por cento de votos em branco. Uma catástrofe.
Evidentemente que as instituições, partidos políticos e autoridades, haviam perdido a credibilidade da população. O voto em branco fora uma manifestação inocente, um desabafo, a indignação pelo descalabro praticado por políticos pertencentes aos partidos da direita, da esquerda e do meio. Políticos de partidos diferentes, mas de atuações iguais, usufruindo de privilégios que afrontavam a população. Os eleitores estavam cansados, revoltados.
Os governantes, sentindo-se ameaçados, trataram de agir em nome da ordem, perseguindo, prendendo, maltratando, eliminando. Alguns que viveram os horrores da cegueira branca, novamente sofreram. Os governantes, preocupados em salvar a própria pele, em garantir o poder, não perceberam que a cegueira branca de outrora, demonstrativo de que há muito o ser humano estava cego, tinham paralelo com o voto branco de agora, indicativo de que a população não perdera a lucidez. O estranho é que não houve uma mobilização para o fato.
A história deste ensaio passa-se num país não identificado (mas com clara referência a Portugal), onde há eleições autárquicas e, nessas eleições o voto em branco chega aos 70% na capital do país. Repete-se a eleição e o problema aumenta: o voto em branco atinge os 83%. O governo é incapaz de compreender e decide entrar pelo caminho da “redenção”, porque, diz Saramago, “não há governo no mundo que esteja preparado para esta situação”.

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