Prefeitura autua Igreja de Santana. Leia o artigo de Zé de Jesus Barreto

Localizada em área de bares que funcionam produzindo ruído, a igreja foi autuada pelo som do sino (Fernando Vivas/Agência A TARDE)

Querem calar o badalar do sino
Não quero crer na notícia que estou lendo: ‘Prefeitura autua a Igreja de Santana por poluição sonora do seu sino’.  Tá na Tarde de sábado, dia 13 de novembro de 2010. Acreditem!
Fora qualquer querela de ordem religiosa, que só nos remeteria a Idade Média, aos tempos da Reforma e da Contra-Reforma, com fogueiras, bruxas, matanças, inquisições… Passando bem longe também de quaisquer questões político-partidárias, eleitoreiras, não é o caso…  Intolerâncias à parte, a questão da intransigência municipal ao badalar dos sinos da Igreja de Santana, do Rio Vermelho, é puro obscurantismo cultural e histórico.
Mais um factóide, tipo aquele outro do xixi na rua, que só nos envergonha perante a nação. ‘Baianada’, no dizer preconceituoso dos sulistas.
E logo na Cidade da Bahia, de suas cantadas 365 igrejas, onde os sinos dos campanários coloniais marcavam as horas, os eventos do dia-a-dia: desde a chegada de navio no porto a um casamento; a ‘ hora do ângelus’ e o enterro; o chamado à missa e as comemorações cívicas…  Cada instante com seu toque diferente, com seu repique próprio para que a população soubesse, ao ouvir o badalar, do que se tratava.
Claro que os tempos são outros, um clic nos põe em contato com o mundo, aldeia global, espaço cibernético… E tal e coisa.
Mas, é o respeito a certos costumes que alimenta a alma de um povo, preserva a identidade, enriquece a sua história, atrai o turista. Isso é cultura. 
O estranho nessa notícia é que as pessoas, pagas por nós, que deveriam cuidar da conservação de determinados valores… Ignorem o que é esta cidade. Desconhecem a história, pensam que cultura baiana é mexer a bunda no carnaval e pronto.  Triste Bahia!
Gostaria de lembrar que, na administração municipal passada, início dos anos 2000, foi feito um convênio entre a Prefeitura, a Arquidiocese, o São Bento, São Francisco, a Catedral Basílica etc…para que os sinos voltassem a badalar às seis da tarde, como antigamente. Alguns jovens até foram treinados nos conventos e pagos pelo município para executarem os toques.  Era bonito ouvir os sinos das igrejas do Centro Histórico na hora da Ave Maria. Mas… acabou.  Como acabaram também com as concorridas trezenas de Santo Antonio, na Praça da Sé, e ainda com a encenação da Paixão de Cristo, durante a semana santa, nas águas do Dique do Tororó. Era um espetáculo, as bordas do dique tomadas de gente.  Acabaram.  Não me perguntem o porquê!
Agora, querem apagar o badalar dos sinos. Breve, se a gente vai permitindo, vão querer matar os galos que descobrem o manto da noite e anunciam o novo dia com sua cantoria; sufocar o latido dos cães na madruga, o trinado dos bem-te-vis e das rolinhas fogo-pagô ao amanhecer; vão brecar o relincho dos jegues que anunciam o meio-dia, calar os atabaques, o foguetório das alvoradas e dos festejos… 
Isso tudo já, de fato, abafado na grande cidade pelo buzinaço dos carros, pelo motor do buzu que esfumaça o clarão do dia, pela histeria dos neuróticos, pelos incontroláveis decibéis dos carros de som e dos mal-educados de porta-malas arreganhados berrando pagodeira em cada esquina. Ah, tudo liberado aê! Os 120 e tantos decibéis dos trios elétricos a qualquer hora e oportunidade também! Faz parte!       
Ora, o badalar dos sinos! Home quá sinhô me deixe!
Zédejesusbarreto (jornalista e escrevinhador) 13/nov2010

5 pensamentos sobre “Prefeitura autua Igreja de Santana. Leia o artigo de Zé de Jesus Barreto

  1. Me faça uma garapa, me bata um abacate, assim dizíamos, não há tanto tempo!! Equívoco parece ser uma palavra que tenta explicar, mas não justifica, nenhuma ação indevida do excelentíssimo senhor prefeito desta tão bonita e maltratada cidade. E por falar em Rio Vermelho, dá pena, dó memso, tanto abandono!
    Seja pela comunidade de pescadores que tentam sobreviver, a duras penas. Da falta de segurança nas ruas, especialmente à noite, mas pode ser a qualquer hora, onde pequenos comerciantes vivem trancafiados e os transeuntes sujeitos à toda sorte. Não é raro ver a correria e os gritos de quem acabou de ser assaltado, voltando do trabalho ou dos estudos noturnos.´
    É lamentável, o que leva anos pra se construir historicamente, com as mãos de muitos que constróem a nossa tradição, ser destruído tão rapidamente por pessoas insensíveis e descomprometidas com a história e a memória de um povo tão especial.

  2. Venho apenas informar que a autuação da Paróquia de Santana, no Rio Vermelho, foi um equívoco operacional da Sucom, já corrigido e noticiado hoje no mesmo jornal que publicara a informação original. Por ter caráter operacional – equivocado, é certo -, a ação foi feita diretamente pela própria Sucom, sem ingerência direta ou conhecimento prévio do prefeito João Henrique. Só para completar, já que também sou um apaixonado defensor dessa nossa querida cidade e da cultura da nossa gente, a mesma Lei que combate o excesso de barulho (5-354/98), exclui da aplicação de sanções os sinos da igreja quando utilizados para indicar horas ou anunciar atos ou cultos religiosos.
    Grande abraço,
    Diogo Tavares – secretário municipal de Comunicação

  3. Barulho de arrocha e pagode – em quaqluer canto da cidadade – pode – mas, o badalar (milenar e melancólico do sino, não). Só falta ao imbecil de plantão probir os bebês de chorar e os cachorros de latir.

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