Ecos da Fonte Nova

Antônio Matos nunca vai se esquecer da Fonte Nova. E é de se perguntar, daqueles que viram algum jogo no antigo estádio, quem vai se esquecer? Implodido, o palco de grandes jogos e outros acontecimentos só vive agora na memória. E é dela que Matos tira o texto que você lê abaixo. Boa leitura.

Foto de Matheus Magenta, no momento da implosão do estádio (em 29 de agosto de 2010)

Lembranças da Fonte Nova
(Por Antônio Matos*)
 Morava no Beco da Agonia, uma ruela localizada no bairro de Nazaré, entre a Ladeira da Poeira e o Jenipapeiro, nas circunvizinhanças da Saúde e próxima ao bairro da Fonte Nova. De minha casa, enxergava o clarão dos holofotes do estádio Octávio Mangabeira e também escutava a vibração dos torcedores e o barulho do espocar dos fogos, quando da entrada dos times em campo.
As tardes de domingo de minha infância e adolescência eram uma festa. Nas imediações de onde residia, mesmo sem este exagerado número de automóveis existente hoje em Salvador, muita gente já utilizava a área como estacionamento, para seus aero willys, fuscas, simcas, gordinis e dauphines, em dias de grandes jogos, que tinham como destaque o equilibrado campeonato baiano, que se estendia por todo o ano e que, além da já famosa dupla Ba-Vi, reunia ainda forças candidatíssimas ao título estadual, como Galícia, Ypiranga, Fluminense de Feira, Botafogo e, posteriormente, a partir de 1960, o Leônico.
Antes e depois das competições, uma algazarra sem tamanho era provocada por um interminável desfile de torcedores (sozinhos ou em grupos) uniformizados, fantasiados e usando chapéus, portando rádios portáteis de marca Spyka – novidade recém chegada à Bahia, vinda do Japão das mais variadas formas – ou carregando tambores, tamborins, agogôs, formando charangas, escorregando na folclórica e íngreme ladeira da Cova da Onça ou a cortar caminho, subindo e descendo, a escadinha da Fonte Nova.
Ninguém usava bandeira e, felizmente, não havia ainda estas abomináveis torcidas organizadas. A Fonte Nova era íntima, estava ali pertinho da gente, de mim e de meus amigos de infância. Batíamos “baba” em seu entorno, na quadra externa do Balbininho, ginásio de esportes inaugurado em 1958, no final da administração Antônio Balbino, e num terreno baldio, situado atrás do placar (ainda manual) do estádio da Fonte Nova, próximo onde até bem pouco tempo existia a piscina olímpica Juracy Magalhães.
Em dias ensolarados, tomávamos banho em largas poças represadas de águas em tom esverdeado e nem sempre saudáveis – muitas vezes cheias de caramujos, recheados de schistosomas – do então maltratado Dique do Tororó. Chamávamos, ironicamente, de piscinas da Portuguesa, em homenagem ao time de futebol de nossa rua.
Estudei, cresci, virei, além de delegado de Polícia, jornalista e minha ligação, que já era grande com a Fonte Nova, por ter sido, por muito tempo, seu frequentador, como torcedor do Ypiranga, e utilizado o seu pesado gramado como zagueiro juvenil do Vitória, se intensificou com minhas atividades, a partir de julho de 1968, como cronista esportivo: repórter na Rádio Cruzeiro, editor e colunista na Tribuna da Bahia e no Diário de Notícias, correspondente em Salvador da Manchete Esportiva e copy-desk em A Tarde.
Na manhã deste domingo, em poucos segundos e numa implosão bem sucedida, o que restava – o anel superior, construído pelo governo Luiz Viana Filho, em 1971 – da velha Fonte Nova veio abaixo e, envolta numa espessa cortina de fumaça, tudo virou pó, levando boa parte da história do futebol baiano.
Só espero que a nova Fonte Nova, a ser construída no mesmo local da antiga e prevista para estar concluída em 2012, honre as tradições do velho estádio, que se não foi templo para Popó, ainda da geração do campinho da Graça, permitiu que, em seu gramado nem sempre regular, ali desfilassem craques como Pelé, Garrincha, Zizinho, Didi, Zague, Nilton Santos, Djalma Santos, Nadinho, Ademir da Guia, Quarentinha, Teotônio, Marito, Lessa, Pinguela, Nelinho (o do Botafogo/BA, Vitória, Flamengo e Galícia), Vicente Arenari, Mário Araújo, Sanfelippo, Roberto Rebouças, Elizeu, Gérson, Kleber Carioca, Osny, Zico, Onça, Mário Sérgio, Rivelino, Douglas, Sócrates, Fito, André, Beijoca, Jésum, Zé Eduardo, Valtinho, Léo Oliveira, Cláudio Adão, Bobô, Romário, Bebeto, Petkovic, Vampeta e Edílson.
* Antônio Matos, jornalista e delegado de Polícia, foi o primeiro editor de Esportes da Tribuna da Bahia.
antonius74@bol.com.br

2 pensamentos sobre “Ecos da Fonte Nova

  1. Caro amigo,

    Sinto o mesmo que voce. Por isso criei um blog para preservar estas memórias. O endereço é
    wwwmemoriasdafontenova.blogspot.com

    acesse e divulgue
    Franklin Oliveira Jr.
    historiador e professor

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