Pau de Colher – Moradores lutam para que a história seja conhecida – IV

E chegamos à quarta e última matéria da reportagem da jornalista Cleidiana Patrícia Ramos (com fotos de Gildo Lima e ilustração feita com pirógrafo de madeira de Túlio Carapiá, da Editoria de Arte de A Tarde) sobre o massacre do Exército brasileiro e polícias da Bahia, Pernambuco e Piauí contra a comunidade de Pau de Colher, distrito de Casa Nova (BA), em 1938.
Não há dúvida de que esta reportagem ajuda a reescrever a História do Brasil, dá visibilidade a excluídos de tudo, inclusive da própria vida. Para mim e Socorro Araújo, que há três anos me trouxe essa história, o objetivo era a divulgação em um veículo de comunicação de grande porte para, quem sabe?, outros sobreviventes do massacre, crianças em 1938 – a exemplo de dona Maria da Conceição Andreza, principal fonte da reportagem – aparecerem, ou pelo menos parentes delas, e se mostrarem ao país.
E esse objetivo foi atingido. Sabemos que remanescentes do massacre entraram  em contato com Cleidiana Ramos. E já há movimento para a realização de um documentário.
A matéria de hoje revela também que o prestigiado Sante Scaldaferri tem dois quadros sobre Pau de Colher, que foram censurados durante a ditadura militar de 64. São fatos que demonstram que não há nada isolado. Canudos, Pau de Colher  e outras tragédias humanas repercutem no Século XXI. Só precisamos estar atentos para os sinais. Fiquemos agora com o último texto da série e aguardemos novos acontecimentos.

EPÍLOGO

Distrito ainda guarda marcas do acampamento.

Paróquia de Casa Nova organiza romaria em dezembro para lembrar movimento de Pau de Colher

Por  Cleidiana Ramos

Edição de A Tarde de 8 de setembro de 2010

A história de Pau de Colher ainda recebe pouca atenção. O movimento é desconhecido mesmo em Casa Nova, município do qual a localidade é distrito. A Paróquia de São José, sediada em Casa Nova tem se empenhado no resgate da história do movimento. Há oito anos, por exemplo, a paróquia realiza uma romaria em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, que é a padroeira de Pau de Colher. A caminhada começa no sítio onde aconteceram as mortes e está a sepultura coletiva e segue até onde ocorria uma conhecida feira.
“Quando eu cheguei aqui em 2002 ninguém falava no movimento. Tivemos a ideia de fazer uma romaria porque é parte da história de um povo que muitas vezes foi contada apenas do ponto de vista do poder político local”, destaca o pároco de Casa Nova, padre Aluísio Alves Borges.
A diocese de Juazeiro, da qual a paróquia de Casa Nova faz parte, lançou um livro intitulado História de Pau de Colher – o último grande movimento messiânico do Brasil.
O livro foi escrito por Roberto Malvezzi, membro da Pastoral da Terra da Diocese de Juazeiro.
“Pau de Colher se insere no contexto de movimentos como Canudos, Crato e Caldeirão.
Por isso precisa ser conhecido no cenário nacional dos movimentos sociais”, diz.
Outros estudos sobre o assunto, além do clássico O Movimento Messiânico de Pau de Colher, de Raymundo Duarte, publicado em 1969, são os livros: Pau de Colher – um pequeno Canudos, de Raimundo Estrela, veiculado em 1997; De Caldeirão a Pau de Colher: a guerra dos caceteiros, de Ruy Bruno Bacelar de Oliveira, lançado em 1998; e Pau de Colher na Letra e na Voz, de Gilmário Moreira Brito, de 1999. O pintor Sante Scaldaferri tem duas pinturas sobre o episódio feitas para uma exposição patrocinada pela Fundação Nacional da Arte (Funarte) e que teve o texto de apresentação censurado pela ditadura militar. O coordenador de Cultura da Prefeitura de Casa Nova, Luciano Correa, afirma que o órgão tem o projeto de fazer um documentário sobre o local.
Abandono
Fora essas iniciativas, o silêncio ainda paira sobre Pau de Colher, onde moram cerca de 40 famílias. As casas não chegam a formar um arraial, pois ficam afastadas umas das outras.
São 98km até Casa Nova, via estrada de terra e sem referências.
Lá não tem posto de saúde, nem telefone público.
A água vem de cisternas e a energia é solar, o que dá para ter uma televisão. A geladeira já é um luxo maior porque precisa de adaptação que custa caro. As casas de taipa são comuns em meio à caatinga.
O período de estiagem às vezes chega a oito meses.
Gregório Manoel Rodrigues, 65 anos, não é sobrevivente do movimento nem teve a sua família diretamente envolvida, mas conhece alguns dos que escaparam e vários detalhes da história.
“Quando a gente veio morar aqui eu sempre tive curiosidade aí comecei a perguntar”, relata. Seu Gregório faz parte do grupo que organiza a romaria de Pau de Colher.
“Eu queria ver isso aqui ter um tratamento melhor porque é a nossa história”. diz. O filho de seu Gregório, Paixão Rodrigues, que tem um bar em Pau de Colher, guarda vários objetos achados em meio à caatinga que parecem remeter aos fatos de 1938.
“Isto parece uma bala”, deduz ao contemplar um artefato que achou na caatinga.
Segundo ele, de vez em quando, um ou outro caçador relata ter desistido da caçada após ouvir barulho como de gente conversando.
São, talvez, os sinais de uma história que usa as armas sobrenaturais de uma consciência coletiva para não ficar totalmente esquecida
“Pau de Colher se insere no contexto de Canudos, Crato e Caldeirão. Precisa ser conhecido no cenário nacional dos movimentos sociais”, diz o escritor Roberto Malvezzi.
Série 4/4
AS MATÉRIAS CONTARAM A TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO MESSIÂNICO OCORRIDO EM PAU DE COLHER A PARTIR DAS MEMÓRIAS DE MARIA DA CONCEIÇÃO ANDREZA.

15 pensamentos sobre “Pau de Colher – Moradores lutam para que a história seja conhecida – IV

  1. A saga messiânica não acabou em Canudos. Daí partiu para o Caldeirão que foi a primeira comunidade a ser bombardeada pelas forças armadas brasileiras, dentro do Brasil, e culminou em Colher de Pau. Mas os vencidos não foram totalmente derrotados. Como a Fénix, ressurgem das cinzas, para fazer ver ao povo brasileiro, como se organizaram para tentar vencer o desafio maior que enfrentaram e enfrentam até hoje: o poder do latifúndio.
    Parabéns Cleidiana. Continue nesse caminho.

  2. gostaria de saber se vocês podem me informar onde posso encontrar o livro de pau de colher,e qual é a editora do livro obrigada

    • Claudia, eu irei lançar agora em agosto um livro sobre Pau de Colher. Nele está um pouco da história de sua família. Sua mãe e Maria Andreza, filhas de Pedro da Andreza, são do Desterro; localidade de Dom Inocêncio-Piauí (minha cidade).

  3. Eu sou filha dee Florisbela Amorim dos Santos sobrevivente do massacre de pau de colher,ela já é falecida minha tia Maria da Conceição conseguiu nos encontrar somos familiares dela,gostaria de dar os parabens, e dizer que se deus quiser conseguiremos fazer com que toda essa história seja rec onhecida nos movimentos dos cenário dos movimentos socias,Pois por muito anos acompanhei o sofrimento de minha mãe que nunca foi esquecido até o ultimo dia que esteve em vida, e que esta com ela no céu torecendo para que algo seja feito para reparar um pouco do sofrimento,que como dizia minha mãe foi muito grande, pois ela viu sua irmã de meses sendo queimada por policias.

    • Florisbela, é uma satisfação ter a sua participação no blog.
      Estamos otimistas quanto ao reconhecimento oficial das vítimas do massacre de Pau de Colher e do aparecimento de novos parentes das vítimas.

  4. Brilhante, o trabalho feito por Cleidiana. É importante ver um órgão de imprensa cumprir o papel de refazer o caminho da história, resgatando fatos que o poder opressor não permitiu que as novas gerações tomassem conhecimento.

    Temos muitas histórias sufocadas pela oficialidade dos ditadores que precisam e devem ser reveladas.

    O maior ganho que a comunidade de Pau de Colher pode ter agora é a ação reparadora do Estado: educação, saúde, trabalho e desenvolvimento. Caso contrário, as feridas estarão sempre abertas.

    Viva a memória. Viva o povo brasileiro!

  5. muito legal toda a iniciativa e a realização. trouxe uma história esquecida por alguns, desconhecida de muitos, e nos fez pensar nas injustiças de sempre na história do nosso país. se ser cidadão hoje é uma enorme labuta e sempre um grande desafio, imagine em 1938. e agora, será que o estado prestará conta a essas pessoas que sobreviveram e viram suas famílias serem exterminadas?

  6. Companheira Cleidiana
    Parabéns pelo seu trabalho e dos seus colegas de A Tarde. Sua competência prestou um grande serviço à História do Brasil.
    Parabéns!

  7. Caro amigo: primeiro tenho que agradecer a você e a Socorro pela pauta. Recuperar histórias como a de dona Maria é que o faz a gente tentar responder aquela pergunta que sempre nos pega pelo rodapé: ” por que fiz jornalismo?”. Essa foi uma daquelas demandas que me emocionaram muito. Obrigada pela pauta, pela força na divulgação e não esqueça que sou sua discípula. Um grande abraço, Cleidiana.

  8. Pingback: o flamboyant

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