Crianças que sobreviveram aos tiros foram dadas para adoção – III

Você que está acompanhando a reportagem de A Tarde, feita por Cleidiana Ramos (com fotos de Gildo Lima e grande participação do departamento de infografia do jornal) sobre o massacre do Exército brasileiro e polícias da Bahia, Pernambuco e Piauí contra sertanejos de Pau de Colher, distrito de Casa Nova, na realidade participa da reconstrução da História do Brasil. Hoje, o destino dado às crianças sobreviventes do massacre. Amanhã, último capítulo.
VIDA QUE SEGUE
Os chamados “órfãos de Pau de Colher” foram distribuídos por famílias da capital
 Por: Cleidiana Ramos

Edição de A Tarde de 7 de setembro de 2010

Após três dias de tiroteio policial contra Pau de Colher, a menina Maria da Conceição Andreza foi tentar descobrir se algum parente havia sobrevivido. Encontrou apenas o pai e duas irmãs. A promessa da polícia aos sobreviventes de um acampamento que reuniu cerca de duas mil pessoas era que todos iriam para casa.
Mas não foi o que aconteceu com vários deles.
E mesmo quem ficou lá jamais esqueceria aquele dia de janeiro de 1938. “Para onde a gente se virava, era aquele mundo de sangue”, conta Martiniano da Silva, 83 anos, conhecido como Seu Bianinho, outro sobrevivente. Enquanto a vida de Seu Bianinho tomou novo rumo na região de Pau de Colher, a de dona Maria ganhou a direção de terras mais distantes.
“Lembro que agente andou uns três dias. Durante a caminhada, choveu granizo, e a gente agarrava as pedras para matar a sede”, diz ela. Uma chuva de granizo num lugar que tem oito meses de seca por ano era muita sorte. Aliás, estar vivo após o tiroteio que deixou 400 mortos era um milagre.
Separação
A princípio, os sobreviventes foram levados para Casa Nova, município do qual Pau de Colher é distrito. Ficaram em uma casa onde homens e mulheres eram separados. Dali, dona Maria e outras crianças foram levadas para Juazeiro e, por fim, Salvador. Nunca mais ela veria o pai e as duas irmãs. Ela conta que o medo durante a viagem de trem era tanto que, mesmo tendo a unha arrancada, acidentalmente, pelo cabo da espingarda de um soldado, não conseguiu gritar.
“Fiquei segurando a dor, com a unha sangrando até que outro soldado perguntou o que era aquilo, mas eu não tinha coragem de responder”, diz Chegando a Salvador, dona Maria foi levada para a Escola de Menores.
Os chamados “órfãos de Pau de Colher” foram então distribuídos a famílias da capital. “Lembro de uma menina chamada Alzira que era negra e foi a única que ninguém quis. Umas freiras é que ficaram com ela. Algum tempo depois, vi Alzira com uma farda de babá”, conta dona Maria. Em Salvador, após mudar algumas vezes, ela acabou ficando com uma família, mas o seu papel na casa era o de empregada doméstica.
Aguentava injustiças calada, como era ordenado que fizesse.
Dona Maria só voltou a Pau de Colher adulta e casada. Havia cinco anos que o pai, Pedro Andreza, tinha morrido.
Das irmãs, Cipriana e Maria Florisbela, não achou pista.
Apenas em maio deste ano, depois de muita procura, soube notícias de Maria Florisbela.
A irmã vivia em Guarulhos, São Paulo, e já tinha vindo à Bahia procurar por ela. O reencontro não aconteceu, pois as notícias chegaram após a morte da irmã.
Dona Maria teve seis filhos.
Uma filha morreu no ano passado.
São nove netos. Há pouco descobriu que tem familiares no Piauí, fruto de uma procura que mobiliza toda a família. “A gente foi buscando livros e outros documentos.
“É difícil, pois a história é pouco conhecida”, afirma Sílvio Roberto da Conceição, 53 anos, filho de dona Maria. Sua irmã, Cristina Maria Pinto de Almeida, 54, já acompanhou a mãe em viagens a Pau de Colher . “A gente deve a ela a possibilidade de descobrir o que for possível sobre esse drama que viveu”, diz.
Mudança
Casa Nova também mudou desde o episódio. Até a cidade sede é outra, pois a de 1938 foi submersa em 1975 com a construção da Barragem de Sobradinho. Lá, fala-se pouco no movimento ocorrido em Pau de Colher. O silêncio é quebrado por algumas informações em poucos trabalhos acadêmicos e reportagens dos jornais da época. A edição de O Imparcial de 12 de Janeiro de 1938, por exemplo, invoca o medo de Lampião para falar do lugar. Aliás, a senha para falar de Pau de Colher era “perigo”.
Numa matéria publicada em o Estado da Bahia de 1º de fevereiro de 1938, o capitão Optato Gueiros, que comandou a investida final contra Pau de Colher, dá o aviso: “Informe no seu jornal dos pernambucanos, baianos, a todos os brasileiros que o perigo dos fanáticos de Pau de Colher está completamente exterminado”. O capitão só não destacou os dramas que prosseguiram, como o de dona Maria Andreza.

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