De Caldeirão a Pau de Colher, a guerra dos caceteiros

Há 3 anos, a jornalista Socorro Araújo me falou de uma guerra declarada pelo governo brasileiro contra uma comunidade sertaneja brasileira. E não era de Canudos que Socorro falava. Ela trazia para mim uma novidade, como também é novidade para quase todo mundo que ouve falar sobre o assunto.
A guerra dos caceteiros, o assassinato de sertanejos nordestinos por armas do Exército brasileiro, em 1938, foi um crime terrível que, infelizmente, a História do Brasil oficial não registra.
Tentamos divulgar o assunto, falamos de livros e trabalhos já escritos sobre Caldeirão e Pau de Colher por abnegados bem-intencionados, mas a grande imprensa não se mostrava disposta a ver o assunto como “uma boa pauta”.
Felizmente, encontramos na jornalista Cleidiana Ramos a inteligência e sensibilidade para dar espaço e voz às vítimas do ataque cruel e desumano do Exército brasileiro. Ela convenceu seus editores de A Tarde e hoje temos a primeira das quatro reportagens sobre o assunto.
Parabéns a Cleidiana, ao repórter-fotográfico Gildo Lima, ao departamento de infografia e editores de A Tarde. As reportagens prosseguem segunda, terça e quarta.
 Leia a deste domingo:

Edição de A Tarde de 5 de setembro de 2010

De Caldeirão a Pau de Colher, a guerra dos caceteiros
Série lembra Pau de Colher
Em uma série de quatro reportagens, iniciada hoje, A TARDE resgata a história do movimento messiânico de Pau de Colher, ocorrido em janeiro de 1938. A saga é contada a partir da história de Maria da Conceição Andreza, 81 anos, que sobreviveu à repressão policial ao movimento, uma ação que deixou cerca de 400 mortos ESPECIAL A12
 

Histórias de quem saiu viva do ataque a Pau de Colher

 

A partir das memórias de Maria da Conceição Andreza, o movimento messiânico que atraiu várias famílias em busca da terra prometida é resgatado
 
Pedro Andreza chegou em casa e avisou à família que iam viajar.
 
Foi assim que começou, em janeiro de 1938, a participação de sua família no movimento messiânico de Pau de Colher, distrito do município de Casa Nova, a 572kmde Salvador, no médio São Francisco. Para trás ficaram as três roças e um rebanho de caprinos. A aventura que o envolveu e mais sua mulher, os oito filhos e mais a sua mãe terminou com cerca de 400 mortos.
 
A história da participação desta família no movimento messiânico é preservada pela memória de uma das filhas de Pedro: Maria da Conceição Andreza, 81 anos, idade aproximada, pois uma de suas batalhas é para encontrar sua certidão de nascimento: “Um dos meus sonhos é saber a minha idade real”, diz dona Maria.
 
Ela mora em Salvador para onde foi trazida à força, após sobreviver ao tiroteio policial que acabou com o acampamento dos chamados “fanáticos” ou “caceteiros”. Embora tenha batalhado por mais de 60 anos, dona Maria não conseguiu reencontrar os parentes que sobreviveram.
 
Quando descobriu a pista do pai em Casa Nova ele já tinha morrido. O mesmo aconteceu com duas das irmãs.
 
Separação
 
Dona Maria se tornou, após o movimento, um dos chamados “órfãos de Pau de Colher”, título dado às crianças que foram distribuídas a famílias da capital pelo próprio Estado sem o esforço de pesquisar se ainda tinham parentes vivos.
 
Elas sobreviveram ao ataque ao acampamento que foi o ponto final da caminhada da família naquele janeiro de 1938 e que durou um dia. O acampamento ficava em volta da casa de José Senhorinho, um líder religioso que desde o ano anterior agitava Pau de Colher.
 
O nome da localidade faz referência a uma árvore que os moradores não sabem afirmar com certeza se era usada para fazer o utensílio de cozinha.
 
Pau de Colher fica a 98 km de Casa Nova, sede do município do qual é distrito. Para chegar lá, ainda hoje é difícil, pois tem que se percorrer uma estrada de terra, cheia de curvas e com poucos marcos de referência. Na época do movimento, a feira do lugar era bem conhecida na região e ocorria ao redor de um juazeiro que continua de pé.
 
Padre Cícero
 
O povo que seguiu para lá esperava a partida para uma terra prometida sediada no Ceará e chamada Caldeirão que tinha o beato José Lourenço como líder. Penitência fazia parte da rotina. “Tudo que acontecia lá era por obediência a José Senhorinho que era chamado de padrinho.
 
Tinham outros, mas era a ele que a gente pedia a bênção.
A gente ficava ajoelhada, com a mão estendida e demorava que ele abençoasse, pois tinha que fazer penitência”, conta dona Maria.
 
Um dos trabalhos mais conhecidos sobre Pau de Colher é o elaborado pelo professor da UFBA Raymundo Duarte, já falecido. Intitulado O Movimento Messiânico de Pau de Colher, o texto foi apresentado no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, em1969. O estudo de Duarte aponta o parentesco do movimento em Pau de Colher com o ocorrido em Caldeirão, liderado por José Lourenço, um discípulo do polêmico padre Cícero Romão, de Juazeiro do Norte.
 
Após a morte do padre em 1934, a localidade de Caldeirão com sua prosperidade, pois tinha até um sistema próprio de abastecimento de água, passou a atrair muita gente. Em Caldeirão, como iria se repetir em Pau de Colher, todo mundo vestia preto, em sinal de luto pela morte do padre Cícero. A prosperidade do lugar começou a incomodar e em 11 de setembro de 1936 foi bombardeada por um destacamento da Força Aérea. Talvez este episódio seja o único na história em que civis brasileiros foram atacados por uma força aérea do próprio País.
 
Herança
 
Amigo de José Lourenço e discípulo do padre Cícero, um beato chamado Severino passou por Pau de Colher. Foi ele quem, depois de conferir o conhecimento que José Senhorinho tinha da Bíblia e de outros fundamentos do catolicismo, o deixou como uma espécie de líder. Na casa de Senhorinho, os moradores de Pau de Colher começaram a se reunir para rezar. Mais tarde, com a chegada de um outro líder, Quinzeiro, também vindo de Caldeirão, o movimento começou a ter ainda mais adeptos.
 
“Quando a gente chegou já tinha muita gente por lá. O abrigo eram umas barracas chamadas de latada”, conta dona Maria. Logo, o poder político da Bahia, Pernambuco e Piauí decidiria que o movimento era perigoso demais.

 

Leia também:

 

De Caldeirão a Pau de Colher, a guerra dos caceteiros
Ensaios
Pau de Colher e Casa Nova
Caldeirão e Pau de Colher: A história das lutas populares é indestrutível
Imagens sobre o massacre
Holocausto no Caldeirão Ceará e Pau de Colher Bahia envergonha a elite do Nordeste
Livros:
  Autor: Ruy Bruno Bacelar de Oliveira   
Editora: Do Autor (engeo.com.br)
Estante: História do Brasil
Ano: 1998

Pau de Colher - autor: Gilmário Moreira Brito Editora da PUC-SP, 01/01/1999 - 259 páginas

Pau de Colher – autor: Gilmário Moreira Brito
Editora da PUC-SP, 01/01/1999 – 259 páginas
Clique nas imagens para ampliá-las:

 

12 pensamentos sobre “De Caldeirão a Pau de Colher, a guerra dos caceteiros

  1. No momento, estou escrevendo um livro cujo personagem termina sua história em Pau de Colher. Já estive, pessoalmente, no Caldeirão e residi, por muitos anos, em Juazeiro do Padre Cícero.

  2. Pingback: A filha de dona Nazinha está feliz: equipe de A TARDE conquista prêmio Abdias do Nascimento | Blog do Brown

  3. a localidade de pau de colher fica na divisa com o estado da bahia mais dentro do municipio de dom inocêncio piaui,na época chamava curral novo municipio de são raimundo nonato -piauí,fica próximo a casa nova bahia mais o conflito foi em território piauiense.

    • Não Edmilson. Pau de Colher fica na Bahia, ao lado de Lagoa do Alegre rumo a Afrânio. Pau de Colher é uma localidade recente. A localidade do arraial fica na Bahia, eu escrevi um livro sobre a guerra.

  4. Pingback: de caldeirão a pau de colher… « o flamboyant

  5. Acompanhei a luta de Socorro para ver essa história reconhecida e também quero parabenizar Cleidiana, Gildo e o jornal A Tarde pela sensibilidade em perceber a importância do resgate desse fato histórico e dar a ele o devido espaço. Uma série digna de prêmio, pelo trabalho de pesquisa, pelas evidências ainda encontradas, pela qualidade do material.
    Acho que a família de Maria Andreza (e os demais descendentes da chamada “guerra dos caceteiros”) deveria ser indenizada por essa brutalidade promovida pelo Estado, como uma forma de reparação.

    Parabéns também, Brown, p/q sei do seu empenho para que essa reportagem tenha se tornado uma realidade.

  6. É uma marca aflitiva não saber a destinação de parentes que sobreviveram a tal insanidade da parte dos autores de tal massacre.Uma lembrança que minha mãe e tio sobreviventes deste drama guardar claramente na memoria de ver seu pai sumido e mãe ser assassinada em suas presenças. Quem pode apagar e restituir a nossa família a sua história interrompida? Sobrenomes que nem ao certo sabemos ser verdadeiros? Para muitos um fato triste,cruel e histórico e para nós, seus dependentes, uma cicatiz que sangra sem nem uma pista de como se fazer justiça! Foi a fé em Deus que confortou e fez minha mãe prosseguir de uma menina aos seis anos de idade fugida a mulher mãe de seis filhos que não deixou a presença de seus pais mortos num massacre cruel. Meus avós e tios perdidos da nossa presença vivem nas novas gerações que levam a nobreza do perdão que vive no coração de minha mãe!

    • Mônica,
      É uma enorme alegria ver a possibilidade de encontrar sobreviventes, vítimas tão quanto a minha mãe, é como se descobrissemos um parente. Sou filha de Maria da Andreza, ponto de partida da reportagem da jornalista Claudiana Ramos.
      Onde vocês moram? entre em contato conosco, gostaria de conhece-as, toda sua família.
      Aguardo com alegre expectativa.
      Abração!
      Cris.

    • Mônica, irei publicar agora em abril um livro de 530 páginas sobre Pau de Colher. Talvez a narrativa mais completa da história, já que foi iniciada pelo tio-avô em 1940, dois anos depois da guerra. O livro relata muitos detalhes; são 66 capítulos. Somos de Dom Inocêncio-PI, fica próximo ao local. Conhecemos todo esse povo.
      E-mail: marcosdamasceno23@yahoo.com.br

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