Os fingidores

A jornalista Ludmilla Duarte faz um artigo no qual denuncia as matreirices de jornalistas que não assumem seu lado político-partidário, hipocritamente até vociferam uma impossível imparcialidade, mas quando escrevem ou falam se traem, demonstrando inequivocamente os traços das agremiações que no íntimo defendem. Sem conseguir disfarçar a plumagem
É verdade, estamos em ano eleitoral e os pré-candidatos se comportam numa total sem-cerimônia: políticos com mandato lançam suas promessas, ou desfilam com seus candidatos, ou turbinam suas máquinas de propaganda; enquanto seus oposicionistas, igualmente de olho nas urnas, pulam diante das câmeras e holofotes vociferando críticas, acusações e propostas. Todos estão em campanha. Até fica feio – mas pior ainda são os jornalistas, articulistas, blogueiros e suas matreirices partidárias: alguns não conseguem mesmo segurar a caneta e disfarçar as plumas. Nem o bico. Estamos em fevereiro, e isso é só o começo.
            Na Folha de São Paulo de 10 de fevereiro (quarta-feira), coluna de Fernando Rodrigues, somente o título já renderia um processo judicial: “Esterco político”.
Abrindo parêntese, lembrei-me imediatamente de uma das histórias de meu pai, Sóstrates Gentil – jornalista morto prematuramente, aos 36 anos – a mim narrada pelo também jornalista Ivan de Carvalho, seu grande amigo à época. Quando de uma das visitas do general e então presidente da República Ernesto Geisel a Salvador, meu pai, jovem jornalista político, foi escalado para a cobertura pela Tribuna da Bahia, jornal que ousava fazer resistência à ditadura militar. Não bastasse estar meu pai visado pelo regime, pois além de jornalista (categoria maldita naqueles anos de chumbo) era membro do Partido Comunista, ainda por cima o jornal publicou, ao lado de sua matéria com a fala de Geisel, uma charge que incluía o desenho de uma privada. Ora, leram os agentes da repressão: o discurso de Geisel é a m… que deve entrar naquela privada. E lá se foi meu pai para a sede da Polícia Federal em Salvador, “convocado” para prestar esclarecimentos, gentilmente “escoltado” por Ivan de Carvalho – que com seu bom trânsito entre os militares esforçou-se para garantir que o amigo retornasse com vida (ou, em outras palavras, pura e simplesmente retornasse) do tal depoimento. Fecha parêntese.
Com a sutileza de um elefante, Rodrigues, de cara e já no título, qualifica o assessor especial do Planalto, homem de confiança do presidente da República: “esterco político”. Em tempos de democracia, Rodrigues não será, é claro “convocado” para depor em unidade alguma de repressão policial. Restam, para Garcia, os advogados. Coloco-me no lugar do assessor do presidente: não tenho paciência para a morosidade judicial desse país (aquela que um ministro do STF recentemente disse que era “um mito”) e se eu fosse Garcia, simplesmente o aguardaria na saída (ou chegada) do trabalho e lhe socaria o nariz. Quero dizer, o bico. Marco Aurélio Garcia lutou contra a repressão política nesse país. Foi exilado no Chile e na França. É formado em Direito e Filosofia. É professor da Unicamp. E mesmo que nada disso impressione a muitos, pelo menos respeitem seus quase 70 anos de vida. “Esterco”? Sim, um soco no nariz. Porque é assim que se trata com moleque.
Mas qual foi o motivo da ira do articulista da “imparcial” Folha de São Paulo? Num debate no último sábado (06) na sede nacional do PT – onde obviamente falava para seus pares – Garcia criticou o consumo do “lixo cultural” estadunidense pela classe média brasileira, via TV a cabo, queixou-se do deserto de idéias e do deserto de produção cultural dos dias de hoje. “Eles realizam, de forma indolor, um processo de dominação muito eficiente”, disse Garcia, referindo-se à programação da TV a cabo reproduzida no Brasil por Sky, Net e companhia. Concordam com ele Noam Chomsky e Edward Herman, autores de “A Manipulação do Público” e o filósofo francês Paul Virilio, autor de “A arte do motor”, entre outros. Muitos outros.
Rodrigues, um dos mosqueteiros emplumados daquela página dois (dou um doce para quem disser quais são os outros três), sai-se com essa em seu artigo: “…sobrevivem dentro do Estado brasileiro os mesmos bolsões de intolerância e incompreensão sobre o que é exatamente liberdade de expressão”. Ah! Entendi. Liberdade de expressão serve para o eminente articulista insultar publicamente um assessor presidencial do alto escalão, mas não se emprega para que o mesmo assessor possa externar sua opinião num debate entre correligionários. Assim ficou fácil.
O melhor ele guardou para o final. Em tom de ameaça, trata de lembrar ao leitor que Garcia coordenará o programa de governo da pré-candidata Dilma Rousseff (Huuuuuuu…! Que medo, Regina….!) e insinua que o “doutor” deverá, certamente, preferir a brasileira produção “Big Brother” em lugar dos enlatados ianques – embora Garcia não tenha feito qualquer apologia à produção televisiva local. Nem poderia: tirando as novelas, uma invenção brasileira, boa parte dos programas brasileiros de grande audiência é copiada dos estadunidenses – Reality shows, que no Brasil têm o nome de Big Brother e A Fazenda; o Spelling Bee virou Soletrando em Luciano Huck , as “pegadinhas” à la Mad TV  tão freqüentes no SBT e na Rede TV! .
Mas é ano eleitoral. Ainda estamos em fevereiro. E isso é só o começo.
10/02/2010
Ludmilla Duarte
Jornalista – 1817 DRT/BA

Um pensamento sobre “Os fingidores

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