Matos homenageia a Tribuna, que completa 40 anos

A Tribuna da Bahia está completando 40 anos de fundação. Para um jornal do Nordeste, que enfrentou todo tipo de ameaça durante a ditadura militar, esta data – redondinha como uma reportagem bem feita – merece nossos aplausos e bravos! Antônio Matos, que iniciou sua carreira por lá, na Escolinha da TBa, dirigido por Quintino de Carvalho, presta sua homenagem a quem lhe deu régua e compasso. Um privilégio para todos nós. Boa leitura:
AO MESTRE, COM CARINHO
Por Antônio Matos
Tudo que sei no jornalismo, devo a Quintino de Carvalho, um mago na arte de escrever, um profissional incontestável, dotado de uma percepção e de uma sensibilidade extraordinárias, próprias de um repórter. Ex-comunista, inteligente, sério, de hábitos simples e muito culto, Quintino, nascido em Itiúba, começou na imprensa escrevendo em “O Momento”, jornal baiano de linha marxista.
No Rio de Janeiro, para onde fora ainda bem jovem, trabalhou na “Tribuna da Imprensa”, com Carlos Lacerda, no “Jornal do Brasil”, participando, como chefe do Copy Desk, da equipe de Odylo Costa, filho, que ali promoveu uma reformulação gráfica e editorial, na revista Manchete e na Dênison Propaganda.
Retornou a Salvador, trazido por Lelivaldo Brito, presidente do Baneb, para assumir a Assessoria de Imprensa daquele estabelecimento bancário, quando foi cooptado pelo empresário Elmano Castro, para montar e dirigir a Tribuna da Bahia.
Determinados, Elmano e Quintino tinham a mesma proposta: fazer um jornal moderno, na forma (com uma composição a frio e uma impressão colorida e em off set) e no conteúdo (com um texto leve, direto, sem os chavões nem as formalidades da mídia impressa tradicional).
Foi neste contexto que, com 20 anos, cheguei, por indicação de Pedrinho Formigli, em junho de 1968, à redação da Escolinha TB, instalada em duas ou três salas no edifício Banpolar, perto da Associação Comercial da Bahia, no Comércio.
A escolinha era, em tese, um jornal, com pautas e coberturas, onde jovens – em sua maioria, estudantes de Comunicação Social e de Direito – se transformavam em redatores e repórteres, sob a liderança de Quintino e a orientação de um rígido manual de redação, elaborado por ele e seguido à risca por todos.
Na verdade, tratava-se de uma oficina para capacitar o pessoal que iria trabalhar futuramente na Tribuna, que seria inaugurada no primeiro semestre de 1969, não fosse uma demorada greve de estivadores no porto de New York, que atrasou a chegada a Salvador do moderno maquinário do jornal, importado dos Estados Unidos. L
ouco por futebol, convicto torcedor ypiranguense, razoável zagueiro de área do juvenil do Vitória e iniciante repórter esportivo da Rádio Cruzeiro, só poderia mesmo me habilitar a ser jornalista na área de Esportes.
Lá, já encontrei o então estudante de Direito e bancário Roberto Pessoa – atual desembargador federal do Trabalho e ex-presidente do TRT/BA – e que viria a se tornar um dos meus melhores amigos, e o aluno do curso de Jornalismo e representante comercial Eliezer Varjão, a quem já conhecia do bairro da Saúde, onde nasci e me criei.
TESTE DE FOGO
No primeiro dia de trabalho, a tarefa era levar um texto com a cobertura do jogo Galícia x CSA, na Fonte Nova, realizado na noite anterior e válido pelo Torneio Nordestão, para as devidas correções de Quintino.
Como era um dos últimos a apresentar a matéria, pude ouvir, com nitidez, meus antecessores serem advertidos por utilização de termos, como peleja, porfia, redonda, pelota, e de expressões, a exemplo de véu da noiva e apagar das luzes, considerados palavrões pelo Manual de Redação. Sorrateiramente, recolhi meu texto, onde chamava ridiculamente o estádio da Fonte Nova de “o maior do Norte-Nordeste do País”, trocava Galícia por “Granadeiros da Cruz de Santiago” e insistia em substituir Alagoas por “Terra dos Marechais”, jargões inaceitáveis pela bíblia quintiniana.
Um aprendizado diário na Escolinha TB. Os Garotos de Quintino, como éramos carinhosamente – e também pejorativamente – chamados, já estavam suficientemente preparados, como profissionais da imprensa, quando ficou definido o dia 21 de outubro de 1969 para o lançamento do jornal.
Com o remanejamento de Marco Rossini, ainda durante a fase de treinamento, para uma das secretarias da Redação, fui escolhido para assumir a Editoria de Esportes. Na minha equipe de repórteres, além de Roberto Pessoa, Wellington Cerqueira e José Augusto Oliveira, hoje conceituados advogados, Paulinho Brandão, jornalista consagrado no setor de automobilismo, e Jaílson Farias, um ativo repórter que a Engenharia impediu que continuasse atuando na mídia.
Em seguida, Aécio Pamponet, com seus textos inteligentes, irônicos e criativos, se juntaria ao grupo.
NOME DE RUA
Muito mais do que nome de rua – localizada no aprazível Jardim Apipema, no bairro nobre do Chame-Chame, em Salvador – o jornalista Joaquim Quintino de Carvalho Filho, morto precocemente, em 1971, aos 42 anos, vítima de um agressivo câncer de pulmão, com metástase no cérebro, merecia outras homenagens da Bahia, pelo muito que representou para a imprensa brasileira.
Dentre as suas inúmeras qualidades, teve a coragem de, com o aval de Elmano Castro, montar um jornal sem medalhões, mas em condições de disputar o mercado baiano, em igualdade de condições, com os vespertinos “A Tarde” e “O Estado da Bahia” e com os matutinos “Jornal da Bahia” e “Diário de Notícias”, seus concorrentes de então.
Para não perder o costume, vou empregar um linguajar típico dos cronistas esportivos, para afirmar que ele foi um vitorioso, com um time formado nas divisões de base.
Que me perdoem Dr. Jorge Calmon e Dr. Cruz Rios, João Carlos Teixeira Gomes e Heraldo Mattos, que formaram gerações de talentosos jornalistas em “A Tarde”, no “Jornal da Bahia” e no “Diário de Notícias”, que me desculpem também Samuel Celestino, o melhor texto das mídias impressa e eletrônica nordestinas, Levi Vasconcelos, Antônio Risério, Demóstenes Teixeira, Paulo Sampaio, Jânio Lôpo, Tasso Franco, Ivan Carvalho e Zé Barreto de Jesus, brilhantes articulistas baianos, mas o Mestre Quintino era um jornalista completo e, por isso mesmo, imbatível.
Antônio Matos, jornalista e delegado de Polícia, foi o primeiro editor de Esportes da Tribuna da Bahia.
Capa da Tribuna da Bahia em 21 de outubro de 1969

Capa da Tribuna da Bahia em 21 de outubro de 1969

AS MÁXIMAS DE QUINTINO
Honesto, exigente, espirituoso, irônico, cuidadoso, bem humorado, 100% profissional. Era assim Quintino de Carvalho, na chefia da Redação da Tribuna da Bahia, desde a Escolinha TB, em meados de 1968, até 1971, quando um câncer o matou precocemente aos 42 anos.
Eis aqui, algumas de suas máximas: 
“Repórter não pode morar em Itapagipe”, dirigindo-se ao repórter de Política, Ivan Carvalho, que chegara atrasado para uma pauta e no tempo em que Itapagipe era longe.
“Osório Villas-Boas não é o homem mais importante do futebol baiano  ? Então, vocês precisam ter o telefone da casa do Osório, do escritório do Osório, do quebra faca do Osório, da amante do Osório…”, durante uma reunião com os integrantes da Editoria de Esportes, numa época em que não existia celular.
”Lázaro não está doente, Lázaro fica enfermo”, criticando a maneira formal do Editor de Fotografia, Lázaro Torres, falar.
“Quem é o Nininho do dia?”, perguntando quem era o repórter que estava substituindo Antônio Matos – cobrindo o treinamento da Seleção Brasileira, no Rio – na chefia da Editoria de Esportes, numa escala de revezamento emergencialmente criada.
“Ninguém sabe, com precisão, quando se usa vírgula e quando se usa ponto e vírgula. Portanto, a partir de hoje, nossos textos não terão mais ponto e vírgula”, falando para os alunos da Escolinha TB.
“Porra de via de regra. Pelo que sei, meu filho, via de regra é vagina”, irritado com a insistência de um repórter em colocar nas matérias termos e expressões não permitidos pelo manual de Redação e num período em que regra era sinônimo de menstruação.
“O burro é ele e já está identificado”, extremamente contrariado com um repórter policial, que narrara o atropelo de um burro e, em vez de escrever que não se sabia de quem era o animal, colocara que “até então, o burro não fora identificado”.
“Nosocômio um cacete. Se minha mãe adoecer, eu não vou querer interná-la em nenhum nosocômio”, reclamando de um outro repórter da Editoria de Polícia, que teimava em chamar hospital de nosocômio.
“Paulinho, você que é poliglota, vá resolver este problema, porque este alemão, que veio instalar a rotativa, arranha um inglês e os peões daqui da oficina mal português falam”, determinando que o repórter esportivo Paulo Brandão, que sabia bem inglês, servisse de intérprete para o técnico estrangeiro, que viera montar o maquinário importado pelo jornal.
“Vou ficar muito aborrecido se você me chamar de ancião, quando eu envelhecer. Bote na cabeça que, num texto jornalístico, velho é velho ou, no máximo, velhinho, jamais idoso ou ancião”, advertindo um recalcitrante repórter da Geral.
“Puta que pariu… Você vai fazer a cobertura de uma passeata desta e não coloca uma linha sequer sobre o quebra-quebra da Polícia com os estudantes, na Ladeira de São Bento”, apontando, para um iniciante repórter da Geral, onde deveria estar o lead da matéria.
“A noiva do Jaílson é colega de trabalho da Dona Amenaide, mãe do Wellington. Imagine que idade tem esta moça”, surpreso com a informação de que o repórter Jaílson Farias estava definindo a data do casamento. 
“Cadê Cavalão ? Será que foi preso de novo ?”, preocupado com a ausência na Redação de Zé Sérgio Gabrielli, editor de Economia e hoje presidente da Petrobras, ativo participante do movimento estudantil no final dos anos 60 e início dos 70 do século passado.
“Precisamos acabar com este provincianismo de, aqui na Bahia, se chamar todo mundo de doutor. Nos textos da Tribuna, somente terá tratamento de doutor o médico e, mesmo assim, se ele estiver no exercício da profissão”, orientando os alunos da Escolinha TB, numa época em que poucos brasileiros tinham curso de doutorado.
“Se o jornal sair hoje, amanhã a gente representa na Justiça contra Carlinhos, para ele dizer os nomes dos cronistas esportivos que estão em seu bolso”, demonstrando que a Tribuna da Bahia não seria omissa em relação às comentadas declarações do presidente da Federação Baiana de Futebol, Carlos Alberto de Andrade, de que tinha jornalista da área de Esportes na folha de pagamento da entidade.
(Frases resgatadas por Antônio Matos e Paulo Brandão, jornalistas fundadores da Tribuna da Bahia e que trabalharam com Quintino de Carvalho).

5 pensamentos sobre “Matos homenageia a Tribuna, que completa 40 anos

  1. Olá! Sou estudante de jornalismo. Gostaria, se possível, do e-mail do jornalista Antônio Matos, pois estou fazendo o meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre a cobertura do jornal Tribuna da Bahia em um período específico e gostaria de colher algumas informações. Desde já, agradeço.

  2. amigo irmão,estou muito feliz em ver seu Blog,vc realmente é categoria meu contador,aproveito pra te mandar o end do meu, queirosfotografo.blogspot.com
    grande abraço.

  3. Pingback: feliz natalício, tribuna «

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