Adjetivar o ladrão do ENEM, por quê?

A prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) foi levada da gráfica Plural na cueca de um dos funcionários da Cetro, uma das três empresas do consórcio Connasel, responsável pela aplicação do exame, segundo afirmação da Polícia Federal. O furto dos cadernos um e dois da prova do Enem aconteceu em dias diferentes.O primeiro caderno foi levado no dia 21 de setembro por Felipe Ribeiro após sugestão de outro funcionário da Cetro, Felipe Pradella, mentor do esquema. Ribeiro foi até o local em que o teste ficava, escondeu a prova na cueca e foi embora. Essa a história.
Esquisito é adjetivar o ladrão como capoeirista, como a Globo – em rede nacional – e a Tribuna da Bahia, em Salvador. Leia o texto de Ludmilla Duarte, jornalista, correspondente de A Tarde, em Brasília:
O ladrão do ENEM é capoeirista. E daí?
por Ludmilla Duarte
A julgar pelo noticiário de hoje (5), parece que o grupo Globo decidiu recuar 80 anos no tempo e fazer a Capoeira retornar à condição de prática proibida. A insistência beirou o surreal. O Globo on line anunciava, logo após o depoimento de Felipe Pradella: “Capoeirista confessa roubo das provas do ENEM”. O Jornal Nacional também frisou a qualificação em rede nacional na voz de Fátima Bernardes. Alguém me responda: o que tem o cós a ver com as calças? Por acaso o rapaz, de 32 anos, subtraiu da gráfica para a qual trabalhava a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) numa espetacular ação que envolveu golpes de Capoeira? E se ele tivesse o hábito de nadar na piscina do bairro seria identificado no noticiário como nadador?
            Até a década de 30, a elite branca dominante no Brasil mandava a polícia prender os praticantes de capoeira. Era o medo daqueles negros descendentes de angolanos que tinham sido escravos nos engenhos de açúcar do Nordeste, e que criaram a capoeira para se defender da violência bárbara a que eram submetidos. Como eram proibidos pelos senhores de lutar, os escravos disfarçavam a prática com música e passos de dança. Dizem os historiadores que esses escravos iam praticar sua arte nas capoeiras, ou capoeirões – áreas do campo, próximas às fazendas, que tinham pequenos arbustos – daí o nome. Dizem também que a luta/dança foi útil na resistência do “exército” de Zumbi, que usou a Capoeira nos confrontos físicos de proteção ao Quilombo dos Palmares.
            Será que a Globo tem a intenção de associar os capoeiristas a práticas criminosas, resgatando o ranço de tempos nem tão distantes assim? Em 1932, mestre Bimba apresentou a capoeira ao então presidente Getúlio Vargas, que ficou fascinado e retirou-a da clandestinidade, transformando-a em esporte nacional. Segundo pesquisa registrada no Atlas do Esporte, da editora Abril, seis milhões de brasileiros praticam a Capoeira no país, mas o número deve ser muito maior: o dado é de 2003.
            Ao roubar e tentar vender a prova do ENEM, Pradella praticou um crime contra a Educação, e prejudicou nada menos que 4,1 milhões de estudantes em todo o país. O grupo Globo, com sua mensagem irresponsável e sub-reptícia, atenta contra a cultura, a História e as genuínas tradições do Brasil.

12 pensamentos sobre “Adjetivar o ladrão do ENEM, por quê?

  1. E com todas as confusões que aconteceram no Enem, o ministro da época foi eleito, em sua primeira eleição!. Que país é este?! Como dizia o saudoso Renato Russo.

  2. Olá Bomfim, boa tarde
    Vou tentar ser sucinto na explicação.
    Tenho meu sobrenome (pradella) atrelado a foto do felipe em buscas pela internet.
    Sou empresário e lido com negociações todos os dias, envolvendo pesquisas e confiabilidade do bom nome. Sei que entende bem o que é isso.
    Portanto não gostaria de continuar a ter o constrangimento de exclarecer que não tenho nenhuma ligação com o fato ocorrido.

    Peço sua cordial gentileza em retirá-la.

    Atenciosamente

    Fabio Pradella

  3. Irmão estou esperando seu comentario em meu Blog, sabe que sem sua opinião não me sinto seguro com oq estou fazendo mesmo distante vc é o melhor amigo que tenho no Jornalismo, grande abraço.

    • Queirós, tentei comentar algo em seu blog – até lhe mandei um e-mail falando sobre isso – e não vi como.

  4. Recebi um e-mail com esse texto e vim fuçar o espaço original. É sempre melhor e gostei. Ainda bem que o filme “Besouro” vem aí para “limpar a barra” dos capoeiristas. É incrível o poder que as “mídias” têm de rotular as pessoas e gerar um saldo positivo ou negativo através de um enunciado. Mas devemos levar em consideração que, muitas vezes, somos muito rudes nos nossos julgamentos. Concordo PLENAMENTE com tudo o que vc escreveu, pois o fato de o cara ser capoeirista nada tem a ver com o crime que ele cometeu. Ele nem era professor de capoeira, apenas pratica o esporte. Prefiro não acreditar que “a Globo” está querendo associar os capoeiritas a alguma prática marginal. Acredito, mais, na falta de atenção e malícia dos repórteres e editores que deixaram essa passar. Pode ser ingenuidade de minha parte, mas acredito que o “rótulo” de capoeirista foi incluso na matéria sem intenção de ofensa, assim como foi feito com o “Dj”. A repórter se refere ao outro rapaz como “o Dj”. Por que não nos ofendemos com isso? Porque a capoeira faz parte da minha realidade, da nossa ancestralidade. Embora creia na falta de malícia, também defendo a idéia de responsabilidade social e ética que os profissionais da área de informação tem que ter na hora de editar uma matéria. Sou editora e muitas vezes passo dias me lamentando por não ter percebido alguma bobagem que foi ao ar. Não estou defendendo a “rotulação”, longe disso, mas acredito que foi falta de maldade mesmo. Se foi proposital, é hora desses profissionais reverem seus conceitos e nós de protestarmos com mais veemência pela qualidade do que é publicado. Gostei do seu canto. Te lerei outras vezes.

      • Caro Bomfim Brown
        Solicitamos a gentileza de retirar a imagem afixada em seu blog com a matéria: Adjetivar o ladrão do ENEM, por quê?
        onde a foto de Felipe Pradella continua vinculada.

        Vários sites e blogs já foram comunicados e já o fizeram. Pedimos sua atenção e brevidade na ação.

        Abraços e bom dia!

      • Olá Fabio
        Qual seria a razão? Jurídica?
        Por favor, explique.
        Atenciosamente
        Bomfim Brown

  5. Não será porque jornalista é assim mesmo? O editor pergunta, “qual a profissão do sujeito?”, o profissional, apressado depois de um dia de trabalho e com a boa dose de arrogância que nos é peculiar, responde, “capoeirista”. Falta a todos nós uma reflexão sobre o tanto de crimes que cometemos no dia-a-dia de matérias cheias de informações deturpadas, conceitos racistas, homofóbicos, preconceituosos. Quantas vezes não dizemos que determinado lugar estava lotado de gente bonita? Eu já usei esta expresão até que li uma reflexão de um colega sobre o conteúdo preconceituoso dela. Esta é uma categoria formada por pessoas, em sua maioria, vindas da classe média, aquela classe média que aspira ser a elite. As vezes, por mais que tenhamos um discurso libertário, na prática fazemos o que condenamos. Já viu como se briga numa redação por convites de camarotes e coisas do gênero? Acho que precisamos rever os nossos conceitos e, sobretudo, a nossa prática. Capoeirista é café pequeno diante do tanto de gente que condenamos todo santo dia. Ou vocês acham que todo garoto negro que é assassinado é mesmo marginal? Que cada casa invadida pela polícia na periferia dos bairros ricos é casa de bandido? Já viram o esforço que os jornais estão fazendo pra dizer que o namorado da sobrinha de Popó e o amigo dele assassinado são marginais? Nos falta, a todos, um bom e honesto debate sobre ética. Jornalística. De vida. Bem que a escola de comunicação e o sindicato poderiam começar a fazer isso.

  6. Tem toda razão, Ludmila. Também fiquei irada quando li a matéria da Tribuna da Bahia, na terça-feira (6/10), com o título “Capoeirista confessa furto de prova do Enem”. Até comentei no blog de Jaciara (À Queima Roupa). Pior que a matéria saiu bem na página em que o jornal divulgava a manifestação do movimento “Mexeu com uma, mexeu com todas”, em solidariedade à jornalista Isabel Ribeiro, vítima de racismo no restaurante do Ondina Apart Hotel. Por ironia, na mesma página o jornal dá uma demonstração de que continua no passado. Que diabos interessa saber que o larápio das provas era capoeirista? Adjetivar o segurança da gráfica que roubou a prova como capoeirista só contribui para jogar na vala comum da marginalidade todo um segmento já tão discriminado. Será que o editor da Tribuna, da Rede Globo e de tantos outros órgãos de imprensa que vivem repetindo esse CRIME não percebem que o fato dele ser capoeirista não contribuiu em nada para o fato dele surrupiar a prova? Ou será má fé, mesmo?

  7. Pingback: a prova do brown «

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