Michael Jachson na lente dos pacatos cidadãos

Desde 25 de junho, quando a notícia da morte de Michael Jackson correu o mundo, tenho ouvido piadinhas e ironias e lido alguns artigos preocupados apenas por que o artista mudou de cor, qual era a dele em repudiar os cabelos crespos em troca de lisos, enfim, exercitamos, mais uma vez, nosso hobby de juiz. O que o sujeito fez, o que deixa no campo da arte, pouco importa. Muitos lembram os casos de pedofilia dos quais foi acusado. Poucos defendem que a estrela do Jackson Five foi julgada pela Justiça de seu país. Um ou outro lembra as armações feitas para se tirar dinheiro do cantor. Ouvi e li um monte de coisas que colocam na berlinda a criatura. Prefiro pensar no criador de uma grande obra artística.
Para vocês, transcrevo aqui os textos que considerei mais lúcidos. Dois artigos: um de Marlene Vaz e outro de Aninha Franco.
Boa leitura!
Michael Jachson em suas várias fases

Michael Jachson em suas várias fases

Domingo, 28 de Junho de 2009
Perdão, Michael Jackson – por Marlene Vaz
 Marlene Vaz*
Ao assistir uma reportagem no “Fantástico”, da Rede Globo, sobre a acusação de abuso sexual cometida pelo americano Michael Jackson, tive a chance de analisar os pais do pop star.
A mãe, como toda americana negra de meia-idade que ascende economicamente, usava uma peruca com cabelos sintéticos imitando o cabelo das americanas brancas. A cirurgia plástica facial era visível sob a maquiagem. Vestindo um suave tecido verde-água, num apuro metódico para apresentar-se como uma “mulher branca fina”, um estilo planejado por algum profissional especialista em simulacro de imagens. Sentada numa cadeira estilo clássico, não levantava os olhos, não encarava a câmara televisiva.
Ao lado dela, o pai de Michael, juntos apenas naquela entrevista para defender a cria mina de ouro. Ele de cabelo pintado, alisado e cortado bem curto, numa infeliz tentativa de parecer branco. Vestido naquela “elegância americana”, com terno de listras (aliás, listras não são adequadas para TV), uma enorme gravata brilhante, como um agressivo símbolo fálico. Para arrematar, um brinquinho de ouro. AH! Antes que me esqueça – sobranceiras depiladas e pintadas com hena, produto que Cleópatra usava. A diferença é que ela era linda (pelo menos a atriz Elizabeth Taylor, que viveu o mito na tela, era). Ele, o papai de Michael, era a mais nítida representação do imaginário daquele que não aceita crescer e envelhecer, vivendo na sua eterna Neverland.
O esforço do estilista do espetáculo valeu para o arquétipo de mãe maravilhosa. Quanto ao pai, não conseguiram disfarçar, em nenhum momento, a imagem do malandro (estou sendo elegante, senão eu diria – do salafrário).
Impressionou-me a dialética da mãe. Contida e ao mesmo tempo controladora dos despautérios que o ex-marido ameaçava declarar. Fiquei pensando quantos anos aquela mulher sofreu violência psicológica daquela figura deletéria que se diz homem e pai. O fim do casamento, provavelmente, deu a ela essa força para tentar evitar que ele “derramasse o caldo” e prejudicasse o filho. Porque, acima do cinismo, ele mostrou ser um americano que não foi à escola, ou se foi, perdeu tempo lá. Afirmou apenas, para se inocentar, que se tratava de “preconceito racial contra o filho”.
A mãe falou com voz calma, mas pareceu nada dizer. A leitura de sua fala esteve flutuando nos gestos e nos símbolos. Com a mão, surpreendentemente firme, ela tentava abaixar o braço, abaixar o dedo em riste fálico e calar a boca do réu não confesso. Com o cérebro lavado por alguma forma de religiosidade fanática, ela dizia que o filho estava sendo perseguido pela força do mal. E quem seria o mal? Isso ela não disse, o que me deu o direito de interpretar, pelos seus olhos baixos de vergonha, que meninos que sofrem violência sexual doméstica podem reproduzir o que aprenderam (e sofreram na carne) na idade adulta.
Por isso, peço-lhe perdão Michael, porque não pude interferir para que tivesse seus direitos de criança assegurados, especialmente os direitos sexuais. Por não ter podido lhe alertar que seu pai não lhe preparou para combater o racismo, mas para que se tornasse “branco”. Perdão por sua mãe submissa, um caso clássico de desigualdade de gênero. Perdão por seus parentes e vizinhos omissos, pois não denunciaram a violência física, psicologia e sexual que você sofreu do seu pai e que posteriormente sua irmã mais velha, La Toya, denunciou numa entrevista globalizada, que você não desmentiu, e todo mundo fez de conta que não ouviu.
Perdão por seu pai não estar no banco dos réus.
E é por isso que nunca vou ter que pedir perdão aos meninos e às meninas do meu país, pois enquanto eu viver vou enfrentar essa violência sexual, mesmo que desagrade a meio mundo. Porque metade do mundo é muito pequena para me fazer desistir.
*Marlene Vaz – socióloga e pesquisadora. Artigo publicado em A TARDE

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REVISTA MUITO – Nº 66 – 5 DE JULHO DE 2009
*Aninha Franco
Fama, a deusa de 100 bocas
A Fama, divindade alada, filha de Titã e Geia, mais famosa em Roma que na Grécia, antigas, cultuada no mundo contemporâneo, era mensageira de Júpiter, tinha a cara de louca e voava à frente do seu cortejo, disseminando mentiras e verdades por suas 100 bocas. O poeta Virgílio (71 a.C.-14 d.C.) a cantou como o mais rápido dos flagelos por causa de “sua mobilidade”, de onde vinham “suas forças que ela aumenta correndo. Pouco temível, a princípio, em breve sobe aos ares e, com os pés presos no chão, esconde a cabeça nas nuvens. Monstro horrível,voa de noite entre o céu e a terra e nunca dorme, de dia espreita do cimo dos palácios, no alto das torres, amedrontando as grandes cidades, semeando mentiras e verdades”.
Janis Joplin (1943-1970) foi arrastada por ela aos 27 anos, Jimi Hendrix (1942-1970) e Jim Morrison (1943-1971), aos 28, Elis Regina (1945-1982), aos 37, Cazuza (1958-1990), aos 32, e Cássia Eller (1962-2001), aos 39. John Lennon (1940-1980), aos 40. Michael Jackson (19582009), possivelmente seu predileto, lhe resistiu por 46 anos dos 50 que viveu, até que ela parou seu coração na tarde de 25 de junho. Se a vida é uma sucessão de sucessores, Jackson sucedeu Elvis Presley (1935-1977), que a Fama levou aos 42 anos, desfigurado por hot-dog e anfetamina.
A divindade disseminou de Jackson 50 plásticas, mudança de cor, dois casamentos, um com a filha do seu antecessor, Lisa Presley, três filhos, uma fortuna de milhões de dólares e a venda de quase um bilhão de cópias de álbuns, dos quais Thriller (1982), o mais vendido da história da música, chegou a 40 milhões. Disseminou, também, We Are The World (1985), um jeito pop de denunciar a clássica miséria, o controle dos direitos autorais de composições dos Beatles, histórias verdadeiras ou falsas sobre pedofilia, falência e negócios desastrosos. Aprendemos cedo que somos semelhantes a Deus, e assistindo às 100 bocas da Fama repercutirem a morte dos mitos, percebi que ele era inimitável e perfeito, como um deus. Deus nos proteja dos homens, aprendemos tarde, porque é insuportável ser perfeito entre os homens.
 *Aninha Franco – dramaturga e escritora

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Veja no vídeo o ensaio do artista para a turnê em Londres
E outras notícias de 25 de junho para cá

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