Passado o frisson…

Em algum momento, na tragédia Eloá, em São Paulo, você viu alguma reportagem sobre a negligência dos pais dos três envolvidos? É sobre isso que Ludmilla Duarte fala nesse artigo. Então, boa leitura.

Eloá e seu executor, Lindemberg

O caso Eloá e a negligência familiar

 *Ludmilla Duarte

            Passado o frisson pelo assassinato da menina Eloá, de São Paulo, pelas mãos de um ex-namorado mais velho e ciumento, começo a receber spreads com todo tipo de reflexão. Sobretudo de gente se solidarizando com as mães e pais do caso – de Eloá, da “corajosa” Nayara (recebi até o texto de uma mulher que dizia que, se tivesse uma filha, gostaria que fosse como ela!) e mesmo com a mãe do assassino Lindemberg.

            Francamente, tenho raiva de todos eles. Como diria a chata da Fernanda Young, esse pessoal me irrita. A começar pela mãe da menina Eloá – que, ao que parece, tem especial habilidade para trazer o crime para dentro da própria casa (marido e filho envolvidos em crime de mando). Mas o que mais me irrita mesmo é pensar que ela, ao lado do tal matador de aluguel, simplesmente empurraram a filha para o desfecho trágico pela ausência de uma coisa muito simples, mas essencial para todo mundo que decide colocar uma prole no mundo: educar os filhos. O que significa uma voz firme, uma mão forte e um não sonoro.

            Não me interessa esse papo de psicólogo, de diálogo acima de tudo e de pai e mãe se arvorando a “amiguinhos” dos filhos. Pergunte a seu pai ou seu avô (a depender da sua idade) de quantos casos ele ouviu falar, em sua “época”, de jovens que andaram sequestrando e matando as namoradas.  Da década de 80 para cá, chinelos e cintos foram aposentados, a voz antigamente grossa e forte dos pais ficou tímida e relutante, as mães foram trabalhar fora e dedicam o tempo disponível aos filhos enchendo-os de mimos para compensar a culpa. A equação é implacável: está aí uma geração com baixa tolerância a frustração, achando que pode tudo. E que detesta ser contrariada.

            Por isso o tal Lindemberg, criado sem pai e sem irmãos e provavelmente por uma mãe superprotetora – seu “fantástico” relato, ao vivo, em rede nacional, a Sônia Abrão leva a crer que a coisa andou por aí – simplesmente não suportou ser rechaçado pela namorada, e, como a considerava propriedade sua, decidiu que tinha o direito de dispôr de sua vida. Por isso a menina Eloá, aos 12 anos de idade, sem maturidade para pressentir perigos e fazer escolhas, foi autorizada a namorar um rapaz sete anos mais velho, comprovadamente problemático e com patologias. Por isso ninguém segurou Nayara que, aos 15 anos de idade, tomou sozinha a decisão de retornar ao cativeiro onde estava um adulto de 22 anos, fora de controle, armado e ameaçando sua vida e a da amiga.

            Deveria haver cadeia para esses pais e mães. Por, ao usarem com total irresponsabilidade e negligência seu pátrio poder, terem jogado um assassino na sociedade, empurrado uma garota para a morte e causado traumas físicos e psicológicos na segunda.

            No mundo ideal, a mãe de Lindemberg teria aberto aquela porta com chutes e arrastado o filho de lá pelos cabelos aos gritos de “você vai prá casa apanhar, seu sem vergonha”. No mundo ideal, Nayara, depois de ser libertada, teria ficado trancada em casa, vigiada pelos pais até que tudo acabasse, ainda que chorasse pitangas. No mundo ideal, Eloá estaria viva porque uma tragédia como esta jamais teria acontecido.

            Se há uma lição que pais e mães devem tirar do caso, a lição é exatamente esta. Comer doces durante a semana? Não pode. Presentes fora de aniversário e Natal? Não tem. Ir para a cama sem banho? De jeito nenhum! Hora de dormir, fazer as tarefas de casa todos os dias, respeitar conversa de adulto. Se não tem idade para ver novela, não vê e acabou. Namorar aos 12? Faça-me o favor! E uma boa chinelada na bunda não traumatiza, faz um bem enorme. Porque educar é uma tarefa difícil – mas é, sem dúvida, a mais importante, e sobre ela ninguém tem o direito de tergiversar. Sob pena de transferir o preço para a sociedade.

*Jornalista. Atualmente, correspondente de A Tarde, em Brasília

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