A campanha de Marta Suplicy

Marta Suplicy baixa o nivel na campanha

Marta Suplicy baixa o nível na campanha

Estou tão indignado quanto Socorro Araújo, minha querida amiga. Sempre buscamos uma práxis política diferente do usual, mantendo a dignidade, sem nenhuma exploração canalha. Infelizmente, a candidata Marta Suplicy e seus marqueteiros não pensam assim. E o Gilberto Carvalho, que está comandando a devassa na vida pessoal do candidato adversário, tem certeza que este é o melhor caminho. Se era pra fazer política assim, para que tanto sofrimento na busca de um país melhor?

Diz Socorro: Também eu estou pasma com o que uma campanha é capaz de fazer com um ser humano. É capaz de jogar na lata de lixo anos de militância, como está acontecendo com Marta Suplicy. Quando todo mundo torcia o bico pra o movimento gay, ela foi a primeria a propor a legalização da união estável. Isso, naquele momento, quando a Globo nem sonhava em colocar personagens gays nas suas novelas, foi fundamental pro fortalecimento do movimento.

Mas, quem sabe culpa dos meus amigos ETs, a merda foi feita e ela vai perder a eleição. Ruim? Talvez não. Pode fazer o brasil pensar sobre os nossos preconceitos. Quando parece que não temos, olha eles ali, aparecendo numa fasezinha que parece inofensiva, ou numa campanha importante como a prefeitura de São Paulo.
Agora, pra nós, jornalistas, pode servir também pra olhar nosso próprio rabo. Tem muita gente preconceituosa, homofóbica, jogando pedra no telhado da outra. O Noblat mesmo é um deles. Quem leu o blog dele durante o dia das eleições tinha certeza que Neto e João disputariam o segundo turno na Bahia. Pensa que depois ele citou o próprio erro? Claro que não. Eles só enxergam o erro alheio.
Então, pra que a gente possa analisar melhor esta polêmica, copio e colo este excelente comentário do Idelber, do Biscoito Fino e a Massa:
Ah! antes, palmas pra o ótimo texto do pessoal do GLBT do PT.
quarta-feira, 15 de outubro 2008

Homofobia e falsa indignação
Nos EUA, costuma-se distinguir entre racismo e o que chamamos race-baiting, que é usar o racismo alheio para benefício próprio, geralmente político-eleitoral. Ninguém em sã consciência diria que Bill Clinton é racista, mas parece-me inegável que ele tentou se aproveitar do racismo sulista contra Barack Obama nas primárias democratas da Carolina do Sul. Há que se conhecer o contexto americano para saber tudo o que se escondia na aparentemente inocente frase ah, não se preocupe, Jesse Jackson também ganhou as primárias da Carolina do Sul em 1984 e 1988.

A campanha de Marta Suplicy errou, e errou feio, ao introduzir as perguntas é casado? tem filhos? no final de um comercial em que fazia uma série de indagações legítimas sobre o passado político de Gilberto Kassab. Se existe algum falante de português deste lado do Atlântico que ainda não viu o anúncio, ele está aqui. Não me parece honesto negar que essas perguntas tentavam jogar com a homofobia alheia. Não me parece honesto dizer que “são perguntas como quaisquer outras”. Não me parece respeitoso com a inteligência alheia tergiversar, como o fez Jilmar Tatto (PT-SP), dizendo que “quando vou à periferia, me perguntam se sou casado, essas coisas”. A pergunta claramente tentava induzir uma reação homofóbica. A resposta do grupo LGBT de apoio à Marta, criticando o comercial, foi na veia. Acho que Marta errou uma segunda vez ao não assumir a responsabilidade pelo anúncio, colocando-o nas costas do marqueteiro. Um anúncio veiculado por uma campanha é de responsabilidade do candidato. Se viu ou não viu, se aprovou ou não aprovou, importa pouco. Ela é responsável pelo que sua campanha veicula. Reitero: condeno o comercial e condeno o fato de que Marta lavou as mãos.

Mas é no mínimo curioso ver os dois pesos e duas medidas da mídia brasileira. A Folha de São Paulo dedicou praticamente metade de seu caderno Brasil desta terça a essas duas frases no comercial de Marta. Vejamos qual é o histórico da Folha de São Paulo no respeito à vida pessoal da própria Marta Suplicy. Infelizmente, os links são restritos a assinantes.

No dia 28/10/2002, a Folha publicou coluna de Danuza Leão que dizia: Os estrangeiros usavam camisa esporte, e o único de terno e gravata era Luis Favre, com seu olhar de mormaço. No dia 18/05/2002, o Painel se preocupou em dizer: Depois de cada ato ou inauguração, a prefeita de SP, Marta Suplicy (PT), invariavelmente telefona para Luis Favre. Para relatar como foi o evento. Como se isso fosse notícia relevante. Ou como se tivesse sido notícia no caso de um político homem. O jornal não demonstrou nem meia linha de indignação no dia 10/08/2002, quando Garotinho disse: prefiro falar sobre o assunto com o franco-argentino que é de fato prefeito de São Paulo. Tampouco apareceu indignação alguma no dia 29/10/2001, quando Paulo Maluf se referiu a Favre como “gigolô”. Pelo contrário, o jornal se referiu à reação dos petistas contra a injúria como “discurso ensaiado”. No dia 15/02/2002, a Folha publicou coluna de Bárbara Gancia que concluía com a monstruosidade: Sabe por que ele é franco-argentino e não vice-versa? Porque não existe argentino-franco.

Não, leitores, essa baixaria xenófoba não saiu na Veja nem na Capricho. Saiu na Folha. O mais respeitado jornal brasileiro.

No dia 21/04/2001, a Folha reproduziu um texto de Cláudio Humberto – sim, aquele mesmo – que continha tantos insultos contra Marta Suplicy e Luis Favre que o Biscoito, simplesmente, se recusa a linkar. Era um anúncio pago de pura difamação, publicado pelo maior jornal brasileiro. Procurem no google. O fato é que o próprio ombudsman sugeriu um “erramos”, que jamais foi feito.

Eu poderia continuar até amanhã de manhã, linkando matérias em que a vida de Marta foi enxovalhada e ridicularizada, numa mescla perversa de sexismo e xenofobia. Que ela seja criticada pelas duas frases sobre Kassab que jogavam com a homofobia alheia. Mas quando será que os mesmos arautos da falsa indignação reconhecerão o seu telhado de vidro? Será que o jornal O Globo tem autoridade para criticar Marta por envolvimento na vida privada do adversário quando esse mesmo jornal, no dia 14/12/1989, publicou esse editorial sobre a infinitamente mais desprezível tática de Collor contra Lula no caso Miriam Cordeiro? No blog do aprendiz de pitbull da Veja, é hora de indignação contra o comercial de Marta. Talvez o blogueiro da Veja tenha se esquecido de que seu histórico de referências a gays e lésbicas é uma coleção de monstruosidades.

Comentando a repercussão do comercial em seu blog sob o título “O milagre de Dona Marta”, Noblat afirma que nunca antes na história deste país os mais destacados blogueiros haviam falado a mesma língua, defendido o mesmo ponto de vista. A lista de links fornecidos por Noblat é, salvo um, de funcionários da grande mídia. Com a exceção de Pedro Dória, não reconheço nenhum deles como “destacado blogueiro”. Suponho, caro Noblat, que há diferentes listas de “destacados blogueiros”. A minha inclui Alexandre Inagaki, Marco Aurélio Weissheimer, Fal Azevedo, Mary W. Certamente não inclui Daniel Piza ou Rosane de Oliveira. Na minha lista de “blogueiros destacados” não houve unanimidade nenhuma. O post mais inteligente, de longe, foi o da Mary W. Outra coisa que talvez valesse a pena dizer a Noblat é que o epíteto “Dona Marta” é insuportavelmente sexista.

Suponho que é consenso entre os leitores do Biscoito que a vida privada de cada um é problema de cada um. Suponho que também seja consensual que, para gays e lésbicas, sair ou não sair do armário é decisão de foro íntimo, que inclui consideração de tantos fatores que a última palavra é sempre decisão pessoal e intransferível. Mas quando há suspeitas de que um prefeito cria uma secretaria de desburocratização para abrigar seu suposto companheiro, a pergunta sobre o nepotismo e a transparência é, sim, de interesse público. A campanha de Marta não soube levantá-la. Espero que a indignação moral contra Marta leve a nossa mídia a um pouco de reflexão sobre o seu próprio telhado de vidro.

´Mais no http://idelberavelar.com/

CLÓVIS ROSSI

Surpresa? Não. Asco? Sim

MADRI – Não dá para dizer que me surpreende a campanha que Marta Suplicy lançou contra Gilberto Kassab.
Afinal, quando ela recomendou às vítimas do apagão aéreo no ano passado que relaxassem e gozassem, escrevi aqui mesmo que sua frase era parente muito próxima do “estupra, mas não mata”, de Paulo Maluf. Uma e outra revelam uma cultura de profundo desprezo pelas vítimas, quaisquer que sejam os eventos que as causam.
Quem mostra dessa maneira asquerosa a sua pior face reincide fatalmente. Marta reincidiu agora. Ajuda-memória: quando Eduardo Suplicy suspendeu uma de suas campanhas para procurar o eixo, Paulo Maluf insinuou para quem quisesse ouvir que a culpa era do comportamento conjugal de Marta, então casada com Suplicy.
A candidata do PT repete agora o mesmo tipo de insinuação.
Surpreende, sim, que não haja a mesma veemência no repúdio, principalmente no próprio PT e na intelectualidade que se acha progressista e é ligada ao partido.
O presidente da República, por exemplo, preferiu dizer que não vira os ataques e que, portanto, não poderia comentá-los, durante entrevista coletiva em Toledo, Espanha. Duvido que não tivesse sido informado, mas sou forçado a lhe dar o benefício da dúvida.
Aqui, mais um ajuda-memória: na campanha presidencial de 1989, Fernando Collor usou o mesmo asqueroso método de Marta ao puxar o tema de Lurian, filha de seu adversário Lula. Derrubou animicamente Lula para o debate seguinte entre eles, e há gente muito próxima do hoje presidente que atribui a derrota a esse golpe vil.
Em qualquer circunstância, pessoas honestas têm a obrigação de repudiar vilezas. Lula, vítima de uma delas, não tem o direito de escudar-se na lealdade partidária para calar. Lealdade, nesse caso, é só com a ética.
ELEIÇÕES 2008 / SÃO PAULO

“Contra nós vale tudo; quando ousamos levantar uma pergunta, se faz esse escarcéu”, afirma chefe-de-gabinete de Lula

Carvalho diz que Marta já teve separação explorada à saciedade e que PT quer que eleitor conheça candidatos em todas as suas dimensões

RANIER BRAGON
EM SÃO PAULO

 Mais novo reforço da campanha de Marta Suplicy (PT), o chefe-de-gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, disse à Folha que o PT continuará a mostrar a história do prefeito Gilberto Kassab “em todas as suas dimensões, pessoais e políticas”.
Já despachando no comitê de Marta, Carvalho afirma ter considerado “absurda” a repercussão na imprensa sobre o comercial do PT e questiona a declaração de Kassab (DEM) insinuando ligação de Marta com o mensalão, já que ela trabalhou com a mulher de Delúbio Soares (ex-tesoureiro do PT), Mônica Valente.
“Isso é que é preconceito.” Carvalho confirmou a última participação de Lula na campanha de Marta -uma reunião com movimentos sociais na Casa de Portugal (centro), no sábado.
FOLHA – O comercial com indagações sobre a vida privada de Gilberto Kassab foi um deslize?
GILBERTO CARVALHO
– Eu não chego a achar que é um deslize não. Na verdade, acho que houve um superdimensionamento na interpretação. Nós sabemos muito bem o que que é a devassa da vida privada. Nada a ver com o que aconteceu com o Kassab, ninguém fez nenhuma acusação a ele. É muito pior a atitude que o Kassab teve no debate, em que ele acusa a Marta falando da Mônica Valente. Quem é Mônica Valente? É uma cidadã contra a qual não há uma única acusação, salvo o fato de ser esposa do Delúbio [Soares]. Isso é que é preconceito. Verbal, nem é da propaganda, é dita pelo candidato. Acho estranho que a imprensa não ter registrado isso. Contra nós vale tudo. E quando ousamos levantar uma pergunta, que é uma pergunta natural, se faz esse escarcéu.

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